Agora estou aqui

Agora escrevo umas coisas e oiço umas músicas aqui:

https://ateassobia.wordpress.com/

Abraços / Cheers.

 

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A ti fisco, eu me confesso

O dinheiro que me cai na conta resulta dos 20 dias de trabalho por mês, cinco dias por semana, oito horas por dia (às vezes um pouco mais, mas fica descansado que não me queixo). Não herdei fortuna, nem tenho património que se veja. Nunca me meti em negócios obscuros nem tão pouco andei a lavar dinheiro. Não significa que seja um cidadão exemplar. Longe disso. Sim, meu caro fisco, já falhei contigo. Por desconhecimento, distração ou simples esquecimento – quem me conhece sabe que a memória não é um dos meus pontos fortes. Sempre que isso aconteceu, um atraso num pagamento ou na entrega de uma qualquer declaração, tu meu caro fisco, deste-me imediatamente com a tua guilhotina. Mandas ameaças mais ou menos veladas, cobras multas e, se eu não fico na linha, ainda me mandas para a prisão. É assim mesmo, eu sei.

Mas, caro fisco, permite-me este desabafo. É que tu também já falhaste comigo. Não uma, não duas, mas várias vezes. Já te atrasaste a pagar, já demoraste a responder, já foste equívoco, muitas vezes és incoerente e, outras tantas, és agressivo e rude. Alguma vez te escrevi a queixar-me? Nunca. Alguma vez eu te cobrei multas por te atrasares a pagar? Zero. Alguma vez te ameacei ou te fiz cara feia? Bem, cara feia já fiz algumas vezes. Mas nunca te ameacei.

No fundo, fisco, tu já sabes quase tudo da minha vida. Sabes quanto eu ganho, para quem trabalho, sabes que património tenho, quanto vale esse património – até porque és tu que decides sem me consultares – sabes se sou casado ou solteiro, se tenho filhos, quanto gasto em saúde, educação, agora até sabes quantas vezes vou jantar fora, a que restaurantes vou e quanto paguei. Sabes mais da minha vida que a minha própria família. Mas não chega, não é? Ainda não te dás por satisfeito! Precisas de escavar só mais um bocadinho para te sentires ainda mais poderoso.

Eu sei. O ideal era poderes ter acesso a todas as contas bancárias. Assim, acordavas de manhã, escolhias aleatoriamente um cidadão e ias lá espreitar. “Eh lá, mas este Anselmo tem aqui um saldo à ordem fora do normal. Vamos lá investigar isto”. Pode sempre acontecer encontrares lá uns 500 euros que te escaparam. Um euro é um euro e com dinheiro não se brinca. Mas, como te expliquei atrás, no meu caso não vais ter muita sorte. Primeiro, porque há um limite de 50 mil euros para poderes ter acesso às minhas contas e, como te expliquei, eu não tenho essa quantia. E, em segundo lugar, porque desejo ardentemente que, mesmo com esse limite, a lei seja considerada inconstitucional. E sabes porquê, caro fisco? Porque há limites para a decência. E levantar o sigilo bancário a quem tem 50 mil euros no banco, é claramente ultrapassar esses limites. É apontar o dedo a culpados e inocentes. É dar-te um poder, a ti fisco, filho bastardo de um Estado que é tão lesto a cobrar e tão lento a pagar, que não mereces. E não me venhas com o adágio popular do “quem não deve não teme”, porque eu tenho outro para a troca: “Quem não confia não é de confiar”.

Anselmo Crespo, TSF, 30 Setembro 2016

O Totti é maior do que o Maradona

27 Outubro de 2002. Há praticamente um mês que andava de albergue em albergue à procura de casa em Roma para me fixar durante um ano, quando o dia do derby chegou.

Fomos cedo para o Olímpico à procura de bilhete mas nada de curva sul. Eu vinha de nove épocas de curva sul em Alvalade, não ia agora ver um dos grandes derbies do mundo numa central, perder a fúria dos cânticos, o cheiro das tochas e a celebração de um golo de Batistuta, Montella ou, claro está, de Totti. E lá foram 60 euros sem pestanejar numa bela ação dos candongueiros de serviço.

O ambiente era electrizante, centenas de polícias a cavalo, a agitação habitual num dos jogos mais importantes do futebol, entre dois clubes que tinham vencido o scudetto em duas das três épocas anteriores: a Lázio, o segundo campeonato da sua história em 2000, 26 anos depois do primeiro; a Roma, o terceiro título em 2001, depois de 18 anos de jejum.

Os clubes da capital italiana tinham assim regressado ao topo do calcio com uma cereja no topo do bolo: no derby anterior ao de Outubro, a Roma tinha cilindrado a Lázio por 5-1 com quatro golos de Vicenzo Montella e um de Totti, numa noite negra do capitão laziale Alessandro Nesta.

Estava na altura de entrar no estádio, mas as coisas não iam ser fáceis. Havia muita pedra a voar, muitos petardos a rebentar, tochas e tudo o que estivesse à mão como arma de arremesso, a cavalaria a acelerar o passo e algumas cabeças abertas também. Eu já tinha visto muita coisa na bola, mas nunca tinha entrado de gatas num estádio. Assim foi.

Corremos para a curva sul onde tudo parecia tranquilo à espera da entrada para o aquecimento. Havia até quem jogasse às cartas. Mas no momento da entrada dos jogadores, ou gladiadores se preferirem, tudo mudou.

Bernardo Pires de Lima, Expresso, 27 Setembro 2016

Artigo completo aqui.