Para os fumadores

Para os fumadores só há dois medos mortais: ter cancro e parar de fumar! Como têm tanto medo de um como de outro, perpetuam o impasse por não conseguirem decidir qual dos dois travar primeiro.

Eis um dilema pós-moderno para quem de alguma forma construiu a sua identidade, o seu pensamento e até a sua elegância, de cigarro na mão. Para muitas gerações o cigarro foi e continua a ser uma atitude. Um estilo. Os gestos de mão ajustam-se na perfeição a estados tão desencontrados como a nostalgia, a ironia, a sensualidade, a raiva, a contemplação, a angústia, a conquista, o stress, a descontração, a animação e por aí adiante. Nunca fumei mais do que aqueles cigarros da adolescência, para experimentar e, como não adorei, fiquei por aí. Mas fascina-me a intimidade que um fumador tem com o seu cigarro. Acho graça à mímica, ao body language e sinceramente até gosto do cheiro da primeira baforada, aquele primeiro sopro imediatamente a seguir a acender um cigarro. Também me divertem os que por vezes desenham formas, anéis e círculos com o fumo. E sei que para muitos parece impossível existir, pensar, escrever ou articular ideias sem a ajuda de um cigarro. Estou a pensar nas belíssimas mãos de Sophia, nos seus longos silêncios, nas suas horas de escrita demorada, depurada, quase sempre acompanhada de cigarros muito longos e finos que ela segurava com leveza e quase cerimónia na ponta dos dedos. Fumar era, para Sophia, sinónimo de elevação.

Laurinda Alves, Observador, 26 Janeiro 2016

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