O Futebol tântrico da turma de Iniesta – Bruno Vieira Amaral

Fiquei feliz por rever Nolito, esse espanhol eléctrico, um Folha com superior visão periférica que, na breve época em que representou o Benfica, tinha na equipa um efeito idêntico ao da injecção de adrenalina que John Travolta dava a Uma Thurman em Pulp Fiction. A diferença é que a beldade sueca estava em paragem cardio-respiratória e aquela equipa do Benfica nunca baixava das 190 pulsações, isto em repouso.

Uma vez mais deliciei-me com Iniesta (não desfazendo das lulas grelhadas), o jogador de quintal espanhol, manchego como dom Quixote, porém com juízo de sobra. Aqueles passes são sobrenaturais. Se lhe dessem uma bola mergulhada num balde de tinta branca, Iniesta podia desenhar as linhas de campo. Os seus companheiros de equipa despendem mais energia mental na tentativa de acompanhar o seu raciocínio do que se lhes pedissem para descrever a hipótese de Riemann (que eu não faço ideia do que seja).

O cliché do “já não há adjectivos” foi inventado para se falar de jogadores como Iniesta, mas à falta de um bom dicionário de sinónimos, o silêncio boquiaberto também serve. Com um bocadinho mais de golo nas botas e um bocadinho menos ar de quem sofre do fígado, já teria levado duas bolas de ouro para casa. Acho que ainda não lhas deram porque têm medo que, durante a cerimónia, faça um passe de trinta metros para um colega na plateia.

Aos 35 minutos, os espanhóis tinham feito 222 passes. Os checos, 72 (contando com os dos apanha-bolas). Nesse momento, já perto do final da primeira parte, espalhou-se pelo éter a melodia de “Love Theme”, de Barry White, a música ideal para o festival de futebol tântrico da roja. Não há dúvida, os espanhóis são os reis dos preliminares, um passezinho para o lado, outro para trás, bola no Iniesta, inventa lá qualquer coisa, olha que ainda não vou rematar, é só mais um bocadinho, não tenhas pressa, aproveita e assim sucessivamente. Até que Iniesta pôs o filme para a frente, viu onde é que Piqué ia entrar e mandou-lhe a bola em correio registado e com aviso de recepção. Golo. Demorou, mas assim sabe melhor. Pelo menos para os compatriotas de Iniesta.

Bruno Vieira Amaral, Observador, 14 Junho 2016

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