Assunção, o corvo negro e Zé Carioca – Dulce Garcia

– O que é que dizes da candidatura da sô dona Assunção Crista à presidência da Câmara Municipal de Lisboa?

– Cristas. Acho bem, já está na hora de a gente mandar nisto. Quer dizer, a gente já manda mas atrás do pano, sempre a fingir que somos parvas.

– Pois eu estou doida para ver a farpela que ela vai usar nos comícios.

– És mesmo mulherzinha! Tu não percebes que a gente tem que a apoiar, nem que ela ande vestida à minhota? O que interessa é o que ela tem na cabeça, não o penteado. Diz-me: se os homens se preocupassem com as roupas e os penteados achas que o Marques Mendes e o Jorge Coelho tinham chegado a ministros? E o Cavaco, tu queres ver que o Cavaco tinha indumentárias dignas de Belém?! Vai por mim, a malta tem de ser mais solidária, tem de vestir a camisola.

– Qual camisola?

– A camisola da Assunção.

– Ai ela já mandou fazer as t-shirts? E que tal, são giras? Sou menina para comprar a dos kiwis, acho giríssima para ir correr.

– Oh mulher, era uma força de expressão, vestir a camisola quer dizer apoiar a candidatura dela. Não sei se já tem camisolas mas neste caso é mais provável que as encha de corvos do que de kiwis.

– Corvos? Pretos? Acho péssimo. É escuro, é triste, é…

– É o símbolo de Lisboa. Realmente um Zé Carioca era mais alegre, mas ainda não chegámos ao Brasil…

Dulce Garcia, Revista Sábado,  19 Setembro 2016

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