Vergonha? Disse vergonha?

E agora? A boçalidade de quem olha para a sociedade numa perspetiva recoletora subjacente ao raciocínio de Mariana Mortágua é evidente e nada tem de novo. Para a esquerda radical, de que a deputada faz parte, a riqueza não se gera, caça-se. Em algum lado a presa/riqueza há-de estar: antes nacionalizava-se e ocupava-se. Agora taxa-se. Alguma vez a esquerda radical concebeu outra forma de governo e de financiamento que não passe pelo confisco? Primeiro dos banqueiros, dos latifundiários, dos capitalistas, das multinacionais e dos grandes grupos económicos que iam pagar a revolução, o socialismo à portuguesa, a aliança com o Terceiro Mundo e os países não-alinhados… Depois, quando os banqueiros e os capitalistas ficaram descapitalizados, os grandes grupos económicos sucumbiram às mãos da incapacidade das comissões ditas de gestão e desapareceram o Terceiro Mundo mais os países não-alinhados, já seriam apenas os ricos a pagar agora não a revolução mas sim a crise. Havia sempre ricos. Muito ricos. Lucros fabulosos… Agora já vamos simplesmente em quem poupa. Ou, parafraseando Mariana Mortágua, em “quem está a acumular dinheiro”. Mas será acumular muito ou pouco? Ou este ano incide-se em quem acumulou muito e para o ano que vem ataca-se quem acumulou um pouco menos? Afinal é a própria atitude burguesa do acumular para transmitir aos filhos – e ser muito ou pouco não interessa – que está em causa. Qual o limite? Não há. Porque cada vez vão precisar de mais dinheiro e cada vez ele será mais escasso. Vão multiplicar-se os dias de manicómio como aquele em que de manhã nos é anunciado um imposto para os “proprietários ricos” pelo BE, à tarde o PCP declara que também tem uma proposta para outro imposto sobre o imobiliário e de caminho, para que não nos falte nada, o PAN pretende obrigar a toque de multas os proprietários a aceitar animais em casa e a CML discute a responsabilização dos proprietários dos prédios afetados pelos graffitis. (A estes, não lhes bastando já terem a sua propriedade desfigurada ainda vão passar a ter de avisar rapidamente a autarquia do ocorrido cujos técnicos sabiamente decidirão se se está perante um caso de arte urbana, que o proprietário ainda se arrisca a ter de conservar, ou de vandalismo que acabará a ter de reparar).

Artigo completo aqui.

Helena Matos, Observador, 18 Setembro 2016

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