O Totti é maior do que o Maradona

27 Outubro de 2002. Há praticamente um mês que andava de albergue em albergue à procura de casa em Roma para me fixar durante um ano, quando o dia do derby chegou.

Fomos cedo para o Olímpico à procura de bilhete mas nada de curva sul. Eu vinha de nove épocas de curva sul em Alvalade, não ia agora ver um dos grandes derbies do mundo numa central, perder a fúria dos cânticos, o cheiro das tochas e a celebração de um golo de Batistuta, Montella ou, claro está, de Totti. E lá foram 60 euros sem pestanejar numa bela ação dos candongueiros de serviço.

O ambiente era electrizante, centenas de polícias a cavalo, a agitação habitual num dos jogos mais importantes do futebol, entre dois clubes que tinham vencido o scudetto em duas das três épocas anteriores: a Lázio, o segundo campeonato da sua história em 2000, 26 anos depois do primeiro; a Roma, o terceiro título em 2001, depois de 18 anos de jejum.

Os clubes da capital italiana tinham assim regressado ao topo do calcio com uma cereja no topo do bolo: no derby anterior ao de Outubro, a Roma tinha cilindrado a Lázio por 5-1 com quatro golos de Vicenzo Montella e um de Totti, numa noite negra do capitão laziale Alessandro Nesta.

Estava na altura de entrar no estádio, mas as coisas não iam ser fáceis. Havia muita pedra a voar, muitos petardos a rebentar, tochas e tudo o que estivesse à mão como arma de arremesso, a cavalaria a acelerar o passo e algumas cabeças abertas também. Eu já tinha visto muita coisa na bola, mas nunca tinha entrado de gatas num estádio. Assim foi.

Corremos para a curva sul onde tudo parecia tranquilo à espera da entrada para o aquecimento. Havia até quem jogasse às cartas. Mas no momento da entrada dos jogadores, ou gladiadores se preferirem, tudo mudou.

Bernardo Pires de Lima, Expresso, 27 Setembro 2016

Artigo completo aqui.

A vida de saltos altos / Paula Cosme Pinto

Num inquérito encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública ao Instituto DataFolha, concluiu-se que um terço de população brasileira considera que a mulher vítima de violação é, de certa forma, responsável pelo ato. Em quase 4 mil entrevistas feitas a homens e mulheres, oriundos de mais de 200 municípios, um em cada três inquiridos afirmou concordar com seguinte frase: “A mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada”. Já para 37% dos entrevistados, “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”. Tanto num caso como no outro, a opinião era partilhada por homens e mulheres, sem grandes diferenças percentuais em termos de género nas respostas dadas. O machismo, com tantas vezes aqui tenho dito, não é exclusivo aos homens, é transversal. Quanto a idades, esta opinião aumenta a partir dos 35 anos e acentua-se nos entrevistados mais idosos.

Artigo completo aqui.

Paula Cosme Pinto, Expresso, 23 Setembro 2016

A vida de Vardy

Para trás tinham ficado todas as dúvidas e todos aqueles jogos nos relvados pantanosos. Jamie Vardy conseguira o impensável e podia dar-se por satisfeito: o Leicester propusera-lhe a renovação de contrato, até 2018, e ele estava na Premier League.

Aos 28 anos, a coisas não estavam mal, ainda que os golos não aparecessem tanto como dantes, mas isso nem era tanto culpa dele mas do treinador. Nigel Pearson sabia que tinha em Vardy um tipo inquebrável e implacável e por isso aproveitou-o para outros trabalhos, mais defensivos, como extremo ou até médio. O Leicester conseguiu manter-se na Premier League, com uma segunda volta incrível, e Jamie Vardy deu nas vistas pelos quilómetros que corria. Era um utilitário e não um topo de gama, mas isso não lhe importava. Para quem vinha de onde ele vinha, jogar contra Fàbregas, Diego Costa, Özil, Rooney e Agüero era a gratificação suprema, uma pequena vingança contra quem dissera que ele não estava à altura da coisa. O melhor estava para vir.

Nos primeiros treinos, em 2015-16, Claudio Ranieri não acreditou no que viu em Vardy: um avançado móvel, rápido e incansável, que conseguia manter a cabeça fria na cara do guarda-redes. Não era um prodígio técnico, e o italiano sabia uma ou duas coisas sobre craques, porque já treinara (e perdera) no Chelsea, na Juventus, na Roma ou no Valencia.

Ranieri ouvia o que se dizia sobre ele: que estava velho para ganhar títulos. E Vardy também estava a bater os 30 e chegara tarde à Premier League. Um e outro, com histórias diferentes sobre a velhice, entenderam-se à primeira. E fez-se história.

Vardy quebrou o recorde de Ruud van Nistelrooy ao marcar consecutivamente nas 11 primeiras jornadas. Roy Hodgson convocou-o para a seleção inglesa. Vardy começou trocar tweets com van Nistelrooy e membros dos One Direction. A Nike passou a patrociná-lo. As redes sociais ficaram inundadas com vídeos dele e dos seus colegas do Leicester. O Leicester foi campeão inglês e ele marcou (para já) 22 golos.

A realidade ultrapassou a ficção neste conto de fadas. E o Football Manager atualizou o seu perfil.

Pedro Candeias, Expresso, originalmente publicado a 3 Maio 2016

vardy

[Foto: Reuters]